quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Camboja, a fênix

O turismo no Camboja se concentra basicamente em Siem Reap. Lá está Ankor, com as deslumbrantes ruínas da civilização Khmer, que ocupam 400 km2 e no final do século XIX foram descobertas pelos franceses, que durante 90 anos dominaram a região.

Indochina 633 bx2

Ankor foi a capital do Império Khmer, que floresceu do século IX ao século XV. Por motivos ignorados, essa civilização entrou em decadência, e a cidade foi coberta pela floresta. Quando os franceses descobriram o conjunto de templos e palácios, não lhe deram importância, e Ankhor permaneceu abandonada. Os colonizadores não quiseram se ocupar do que talvez lhes parecesse inútil.
     Mas depois de todas as reviravoltas políticas – independência do domínio francês, guerra do Vietnã, ascenção e queda do sanguinário Khmer Vermelho – a região renasceu, não só para os turistas, mas para o povo cambojano.

Indochina 651 bx 
O país abriu-se para o turismo em 2001. Dessa data até 2010, foram construídos nada menos que onze hoteis por ano em Siem Reap, para abrigar os 2.5 milhões de turistas que chegaram em 2011 – e que deverão somar três milhões em 2012 e quatro milhões em 2014.
    O povo se esforça para atender às expectativas. Gentilíssimos, os que lidam com turistas aprendem idiomas, frequentam cursos de hotelaria e fazem questão de atender com presteza às solicitações.
    Diz-se que o Egito é um presente do Nilo. Pode-se dizer que o Camboja de hoje é um presente de seu povo, que sofreu horrores durante a ditadura de Pol Pot e agora ressurje das cinzas do genocídio perpetrado pelo Khmer Vermelho, que exterminou  cerca de um terço da população do país.

 

Siem Reap quer dizer Tailândia – Siem: o antigo Reino do Sião - derrotada. No conflagrado Sudeste Asiático ocorreram, ao longo dos séculos, muitas escaramuças entre os países limítrofes - Tailândia, Vietnã, Laos e Camboja.  

     Indochina 609 bx         Indochina 688 bx        Indochina 683 bx

Ankor é o cartão postal, não só da cidade, mas do país. As ruínas, com belíssimas esculturas de pedra, em três dimensões e baixo relevo, ilustram a bandeira nacional e as notas do dinheiro cambojano, o que dá ideia da relevância desse patrimônio. Os mais atentos terão notado que a moldura do blog é um dos baixos-relevos lá existentes.

    Indochina 680 bx     Indochina 704 bx     Indochina 706 bx

Pesquisas recentes atestam que em Ankor havia uma população de meio milhão de habitantes, o que o configuraria como o maior assentamento pré-industrial da História de humanidade.

   Indochina 684 bx

Durante o tempo em que Ankor foi esquecida, a vegetação tomou conta do lugar. Hoje, raízes de árvores centenárias enlaçam as ruínas.

          Indochina 747 bx           Indochina 744 bx

      Turistas e locais estão em toda parte...

      Indochina 690 bx      Indochina 661 bx      Indochina 705 bx

                                                                                                                                                                                … e cada um se diverte como quer.

     Indochina 658 bx   Indochina 716 bx

Conjuntos musicais formados por mutilados de guerra se apresentam, e mulheres passam com o rosto inteiramente coberto, estranho comportamento observado também em outros países do Sudeste Asiático. A explicação é que estão se protegendo do sol e do ar poluído.

     Indochina 737 bx      Indochina 647 bx   Indochina 648 bx

À noite, nada como um show de danças típicas. Ligue o som e escute a original melodia no vídeo feito por Jitman Vibranovski.

 

  Indochina 755 bx 

Indochina 773 bx

Depois, um passeio pela cidade, para ver as luzes se refletindo no rio e fazer compras no mercadinho de artesanato, onde há objetos típicos, em especial bonitos lenços e echarpes de seda pura, a preços mais que convidativos. 

  Indochina 626 bx

 

        Para finalizar, um vídeo feito em condições precárias por Jitman Vibranovski, no qual nosso guia, Chhun, conta parte dos horrores que sua família viveu quando o país esteve sob o jugo do Khmer Vermelho. Os cambojanos foram expulsos de suas casas e levados para campos de concentração, onde tinham que trabalhar no cultivo de arroz e recebiam alimentação escassa. Não lhes era permitido sequer plantar para comer. Só podiam se locomover a pé. Bicicletas, motos e mesmo objetos como relógios ou óculos de grau eram proibidos. Enquanto isso, o país se tornava o maior exportador mundial de arroz.

       Esse regime de terror durou três anos, oito meses e vinte dias, nas contas de Chhun. Mas foi o suficiente para eliminar três milhões de cambojanos, mais de um terço da população. Monges e professores – cerca de 16 mil intelectuais - foram os primeiros a serem assassinados. Os exilados do regime anterior foram chamados para ajudar na reconstrução do país, para onde regressaram esperançosos. Mas, ao chegar, iam do aeroporto para os campos de extermínio, onde, para economizar munição, eram mortos a pauladas.  A irmã do nosso guia, de apenas três anos, morreu de fome, pois a mãe não tinha como alimentá-la no campo de concentração onde viviam.

       Depois de libertado pelo Vietnã - que invadiu o país – o Camboja renasceu das cinzas. Hoje, a maior parte da população tem menos de 32 anos, pois a geração anterior foi praticamente dizimada. Os líderes do regime genocida, tido como um dos piores da História, foram julgados e presos. No início de 2012, Kaing Guek Eav, um dos integrantes, foi condenado à prisão perpétua. Pol Pot, mentor do Khmer Vermelho, morreu em 1998. 

       O filme “Os gritos do silêncio”, feito em 1984, retrata, de maneira bem próxima à realidade, a situação do país sob o regime de Pol Pot.

Próxima postagem: Anavilhanas

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cu Chi, onde o Vietnã ganhou a guerra

     Os Estados Unidos, sob o governo de Lyndon Johnson, prometeram bombardear o Vietnã até fazê-lo regredir à Idade da Pedra. No entanto, os "miseráveis comedores de arroz" ou "piolhos humanos", como eles chamavam os vietnamitas, enxotaram de seu país a maior potência mundial, que saiu moralmente dilacerada do conflito. Com isso, os EUA tiveram que amargar a primeira derrota militar de sua história, e nunca mais o establishment americano contou com a integral confiança de seus cidadãos.

     Quando os EUA entraram na guerra tinham certeza da vitória. A superioridade bélica - armamentos de última geração, armas químicas (apesar de proscritas pela Convenção de Genebra) e bombas de fragmentação, além do desfolhante conhecido como agente laranja - parecia antever um conflito de curta duração, com triunfo do mais forte.

Indochina 566.jpg bx   Mas a fibra dos vietnamitas falou mais alto. Com armas rudimentares e muita vontade de defender seu território, o povo se engajou numa luta de guerrilhas, e formou um exército popular que expulsou os invasores. Segundo o historiador mericano Howard Zinn, "foi um caso de tecnologia moderna organizada contra seres humanos organizados. E os seres humanos saíram vitoriosos".

   Cu Chi é o símbolo dessa garra. Perto de Saigon (atual Ho Chi Minh), antiga capital do sul, o lugar abriga um complexo de cerca de 250 km (!) de túneis escavados com instrumentos toscos: pás, colheres, etc. Lá, os guerrilheiros - chamados vietcongs pela mídia ocidental - se escondiam, lutavam, cuidavam de seus feridos e construíam armas com restos de bombas lançadas pelos americanos.

  O local hoje é um ponto turístico, onde se pode ver exemplos de armadilhas feitas com sobras de armamentos do inimigo e mapas dessa impressionante obra de engenharia que engenheiro algum imaginaria viável.

 

Mapa túneis bx

Para escavar os túneis, os guerrilheiros escolheram um terreno duro, que não representasse ameaça de desabamento, e próximo a um rio. Construíram três andares, pois em caso de bombardeio o piso superior poderia ser destruído, mas dificilmente os mais profundos.

Lá eles dormiam, guardavam munições e reuniam-se para traçar estratégias de guerra. Tinham sistema de ventilação ligado ao rio e à superfície. Para evitar serem descobertos quando cozinhavam, construíram um complexo de chaminés que espalhavam a fumaça.

A alimentação era precária. Mosquitos e outros insetos aumentavam o desconforto, assim como o calor. Necessidades fisiológicas eram feitas dentro dos túneis, no chão, e depois cobertas com terra.

 

Hoje quem visita Cu Chi pode entrar em parte dos túneis. A turista sorridente se locomove num deles - esse, diga-se de passagem, bem mais largo do que outros que visitamos.  

                Dentro túnel bx

      O mapa acima e as fotos ao lado e abaixo foram-nos enviados por Oanh Chu Van, nosso guia em Hanói. Abaixo vê-se parte das trincheiras, onde os guerrilheiros lutavam contra os invasores.

                            Trincheiras bx


Tivemos a sorte de conhecer um antigo guerrilheiro vietcong, Nguyen Van Dinh, pai de nosso guia em Saigon, atual Ho Chi Minh. O filho pediu que ele nos levasse ao aeroporto, e no caminho conversamos sobre a experiência dele nos túneis, onde viveu por três meses, e onde por pouco escapou de ser morto. Veja abaixo parte do vídeo feito por Jitman Vibranovski, no qual Van Dinh relata, em espanhol, a vida nos túneis:

Impresssionantes são as armadilhas construídas artesanalmente pelos guerrilheiros. Eles utilizavam restos de bombas não detonadas - que, a propósito, às vezes explodiam quando manuseadas - e faziam vários tipos de ardis para ferir, capturar, matar ou inutilizar soldados americanos que se aventurassem pela selva.

Indochina 564 bx        Indochina 563 bx

Abaixo, exemplos de armadilhas, em vídeo feito por Jitman Vibranovski:

Não pudemos deixar de entrar nos túneis. A sensação é sufocante. Ficamos pouco mais de alguns minutos, e queríamos sair o mais rápído possível. Difícil imaginar como pessoas viveram ali por tanto tempo. Só mesmo esse valoroso povo vietnamita, no esforço de não deixar que seu país sucumbisse às garras do invasor.

Fotos documentam nossa experiência:

Indochina 558 bx   Indochina 556 bx   Indochina 560 bx  Indochina 561 bx

Abaixo, numa brincadeira, Jitman Vibranovski me filmou saindo de um dos túneis:

Para terminar, o monumento aos 40 mil mortos vietnamitas em Cu chi, nessa querra suja na qual morreram cerca de 3 milhões de civis e militares do Vietnã, um país pobre e agrário; onde foram usadas armas químicas que dizimaram árvores e envenenaram rios e lagos, tornando terras imprestáveis para a lavoura; essa guerra cujas bombas de napalm lançadas pelo país mais rico do mundo mutilaram milhões de pessoas pobres, causando doenças de pele, malformações genéticas, câncer e incapacidades mentais. Até hoje no Vietnã - e também nos Estados Unidos - nascem crianças deformadas, cujos pais não foram necessariamente expostos ao herbicida, mas comeram alimentos contaminados por ele.

      Monumento aos 40 mil mortos bx                                      (foto enviada por Oanh Chu Van, de Hanoi)
                                       

Próxima postagem: Camboja

sexta-feira, 16 de março de 2012

A fascinante Saigon, atual Ho Chi Minh (dez 2011)

       Dez milhões de habitantes e cinco milhões de motocicletas. Essa é Saigon, antiga capital do Vietnã do Sul, que, com a vitória do comunista Vietnã do Norte e a reunificação do país, passou a chamar-se Ho Chi Minh, em homenagem ao herói nacional. A foto abaixo, feita da janela do hotel, mostra à esquerda um prédio de 86 andares, símbolo da modernidade dessa que é considerada a capital econômica, financeira e comercial do país.

P1080685 bx  

Nossa visita ao Vietnã deixou gosto de quero mais.  O roteiro reservou 14 dias ao país. Parece muito, mas para conhecer melhor o povo e os costumes - além das atrações turísticas propriamente ditas - seria preciso mais tempo.

Em Ho Chi Minh, ou Saigon, ficamos dois dias. E como num deles fomos a Cu Chi, onde estão os túneis cavados pelos vietcongs durante a guerra (tema da próxima postagem), só nos restou um dia na cidade.

Conhecemos o palácio presidencial. Abaixo, uma das salas e o jardim. O lugar tem história: em 8 de abril de 1975, já no fim da guerra, o coronel Thanh Trung, da força aérea do Vietnã do Sul, lançou bombas sobre ele. Embora causando poucos estragos, o ataque teve efeito devastador no moral das forças do Sul, e forçou o presidente Thieu, títere dos americanos, a abandonar  Saigon. Thanh Trung, agente do Norte infiltrado nas fileiras sulinas, foi proclamado herói e promovido a Capitão da Força Aérea Popular do Vietnã.

P1080675 bx              foto 

Visitamos também, no bairro chinês, um pagode budista de 250 anos, dedicado à deusa protetora das águas.

P1080674 bx

Os fieis colocam espirais de incenso e fazem pedidos. Segundo a tradição, quando a espiral se queimar por completo, o pedido será atendido.

Veja no vídeo abaixo, feito por Jitman Vibranovski, os incensos e os desejos escritos em tiras de papel cor-de-rosa. Ligue o som.

  Conhecemos também, numa fábrica, o tradicional processo oriental de fabricação de laca. Abaixo, vídeo de Jitman Vibranovski.

 

Além desses passeios, o melhor foi observar a população no dia-a-dia:

         P1080725 bx        P1080716 bx
         A incrível quantidade de motos nas ruas...                                             ... e a motociclista com o rosto totalmente coberto.

 

          P1080712 bx                      P1080707 bx 
          A grávida sem preocupação com segurança...                                            ... e a mocinha elegante em sua microssaia.

As ruas e calçadas são movimentadas:

P1080700 bx       P1080699 bx  
Pessoas trabalham...

 P1080680 bx       P1080682 bx
...almoçam...                                                                                                             ...tiram uma sesta...

 P1080697 bx          P1080718 bx 
  ...e se divertem.

Mas é à noite que as ruas são mais animadas. Embora o Natal não seja uma data religiosa importante no país, lá, como cá, o comércio se agita: uma quantidade inimaginável de gente fotografava e era fotografada em frente às vitrines coloridas de lojas comuns e grifes internacionais. Numa noite de terça feira, era difícil andar pelas calçadas, tamanha a quantidade de famílias inteiras passeando, felizes como numa festa. Era o fascínio do consumo, ainda incipiente nesse esse país só recentemente inserido na economia de mercado.

Só que, infelizmente, saímos sem câmera. E talvez nem teria sido possível fotografar, pois mal conseguíamos nos movimentar.

Abaixo, duas figuras bem ocidentalizadas, típicas desse novo Vietnã:

                         P1080732 bx                                             P1080733 bx

Próxima postagem: Cu Chi, onde o Vietnã ganhou a guerra